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Política a arte do bem comum - Wilson Cotrim

Por: Família Missionária

O que tenho notado ao longo de anos de reflexão e de discussão na caminhada, seja no campo político, pastoral, de comunicação,etc., é que as mudanças sociais, políticas, econômicas em nosso país tem avançado, ora lentamente, ora mais rapidamente. E a Igreja contribuiu no andamento desse processo, com alguns pecados, mas, também, de forma valiosa, com a luta visando o fim da ditadura e o retorno à Democracia, com o custo de sofrimentos e até de perdas de vida.
 

Aquele foi um triste período  que não pode sair de nossa memória para que não mais volte a se repetir.
Foi um momento duro para a nossa liberdade e hoje, as gerações atuais, sentem enormemente as conseqüências da falta de democracia daquele período.  Lembro de que não podíamos (eu ainda criança e depois adolescente), falar em política.  Em São Paulo, onde nasci e vivi durante este período, lembro que duas pessoas conversando na esquina já era motivo para prisão.  Os pais não deixavam os filhos conversarem sobre política dentro de suas casas e, imagine fora de casa! Graças a Deus, em casa, meu pai nunca nos proibiu, eu e meus irmãos, de conversarmos sobre o tema.  Entre os meus amigos não podia falar sobre o assunto.  Para mim isso não foi nada fácil: sentir o desejo de tocar num assunto que já entendia ser importante, e os meus amigos alijarem-me da roda porque não queriam nem pensar sobre a verdadeira realidade na qual estavam inseridos. 
 

A exceção era na comunidade de fé, onde, com alguns padres e jovens (nem todos porém), podíamos conversar.  Com o tempo, mais e mais pessoas da nossa Igreja foram perdendo o medo e foram tomando a Bíblia como a leitura da libertação e a Bíblia, de fato, foi dando a força necessária para aquela turma, que, com o tempo, foi se avolumando sempre mais, para enfrentar os desafios. Entretanto, poucas eram as pessoas da minha fase, da minha geração que participavam da Igreja e, assim, grande parte da minha geração teve dificuldades de conversar sobre Política, que passou a ser um tabu, que passou a ser um assunto demoníaco, como é até hoje. O resultado todos sabemos: hoje temos muitas pessoas analfabetas politicamente e para muitos o assunto dá uma verdadeira paura.
 

Por isso não estranho e sinto, sim, tristeza, pelo fato de que vivemos em comunidade de fé, tendo a Bíblia nas mãos e não nos damos conta que a Palavra de Deus é a nossa verdadeira libertação como foi desde os primeiros tempos para o povo excluido da vida, sob o domínio dos poderosos.
 

O que acontece muitas vezes em nossas comunidades?
-Nos períodos entre as eleições, quando o assunto sobre a Política deveria ser exposto para uma melhor compreensão de todos, vemos que o tema Política (que é a arte de se fazer o bem comum), é endemonizado.  Pessoas que agem assim, até lideranças, seguem bem de perto a cartilha transmitida pelos Meios de Comunicação de que a Política é suja, os políticos são todos corruptos e ninguém presta.  Os que dirigem os Meios não são ignorantes sobre o assunto. 
Os que dirigem os Meios de Comunicação tem um lado, tem um Partido, o lado do Poder que concentra a renda só para uma pequena Elite que não quer ser questionada de jeito nenhum.  E nós, “pobres mortais”, diante de tanta propaganda negativa sobre o assunto acabamos assumindo a atitude de transmissores e levamos para a frente a mensagem endemonizadora sobre a Política. Fazemos a função de reprodutores do negativismo e assim tiramos a chance de os mais novos se interessarem pelo assunto que diz respeito a todos, queiramos ou não.
 

Continuamos deixando de discutir o assunto em casa, na comunidade, com os amigos e prosseguimos incultos sobre o tema. Daí chega o grande dia da eleição, quando vamos votar. A nossa mente está preparada para excluirmos todos os candidatos, porque não sabemos nada sobre ninguém e nem sabemos o que cada um pensa sobre os valores cristãos que defendemos como: Justiça, solidariedade, fraternidade, partilha, vida com dignidade, etc. Não pensamos sobre a realidade na qual estamos inseridos, se houve melhorias nas relações sociais, nas relações de fé e de compromisso social, na distribuição da renda do país, na melhoria da vida do povo: moradia, saúde, educação, trabalho, lazer, transporte público, segurança pública, salários e por aí afora. Como estamos desligados, surgem líderes de várias tendências: uns com boas intenções, outros, com idéias manipuladoras de nossa consciência porque são também manipulados. Esses líderes estão presentes na comunidade, no grupo que frequentamos, no trabalho, entre os chamados “formadores de opinião” que aparecem na Mídia.

Esses líderes, para quem a Política era suja e a endemonizavam, agora vem com elogios para alguns candidatos de seu agrado e a Política, em seus discursos, toma uma nova roupagem, com a apresentação do Milagre em ano eleitoral: trazem pronto o candidato ideal e tudo que o líder falar, já aceitamos de pronto, porque estamos tão desacostumados de pensar que passa a ser muito trabalho pensarmos sobre a vida e os feitos de tal candidato.
 

Cremos firmemente no líder que nos aponta o candidato, porque ele já pensou por nós. Cremos ainda em tudo o que dizem os chamados “formadores de opinião” que estão entre nós, ou distante de nós, na Mídia, por exemplo, quando “queimam” a honra de outra pessoa que é adversária daquela que nos indicam.
E nós nem nos damos conta de refletirmos sobre a outra pessoa, sua história e o contexto em que passa sua história; bem como seus sonhos, seus feitos. É demais para nós nos incomodarmos sobre assuntos que parecem estar tão distante, não é mesmo? (aqui faço uma ressalva do respeito que devemos ter pelas posições das lideranças. Quero ainda frisar sua relevância e lembrar, no entanto, da diferenciação que devemos fazer do líder manipulador e do líder conscientizador: um pensa pelos liderados e o outro pensa com os liderados e busca o melhor caminho e a melhor solução tendo em vista o conjunto do corpo).

É por isso que volto a comentar sobre a importância de discutirmos, de debatermos, sem cansar, assuntos de Política em nossa casa, em nossa comunidade de fé, nas associações, nos sindicatos. Não necessariamente a Política partidária, mas a Política como a arte de se fazer o bem tendo em vista a melhoria de vida para todos. A Política é o campo onde desenvolvem-se as ações com as quais sonhamos, movidos pela esperança de um mundo melhor para todos indistintamente.

Portanto, se deixarmos para pensar Política somente nos dias que antecedem eleições, nos enganamos redondamente e corremos o risco de sermos também enganados. Eduquemo-nos politicamente todos os dias do ano e seremos capazes de distinguir melhor as verdades das manipulações; as pessoas que se candidatam para fazerem Política de verdade das pessoas que se candidatam por status, por Poder ou para levarem vantagens financeiras às custas do sofrimento do povo.
 

W i l s o n C o t r i m - Jornalista/Teólogo

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